A CASA: LUGAR E CORPO DO BOVARISMO

 

Telma Martins Boudou – UFES/CESV

 

 

Considerar a poética da casa em Madame Bovary de Flaubert é identificar no espaço romanesco dentro do qual se move a personagem não a presença da casa, mas a sua ausência, ou se quisermos, a não – casa. Na visão bacherladiana, a casa é o o espaço acolhedor, onde o ser participa verticalmente de duas realidades, e para explicá-las, o filósofo utiliza-se de duas imagens, a imagem do sótão e a imagem do porão. A primeira significando a racionalidade e a segunda a irracionalidade. No sótão, na reflexão de Bachelard “todos os pensamentos são claros; no porão, ser obscuro da casa o ser participa das potências subterrâneas. Sonhando com ele, concordamos com a irracionalidade das profundezas”. E, mais adiante, sintetiza seu pensamento: “Nós nos tornamos sensíveis a essa dupla polaridade vertical da casa, se nos tornarmos sensíveis à função de habitar até o ponto de fazer disso uma réplica imaginária da função de construir. Os andares mais altos, o sótão, o sonhador os ‘edifica’ e os reedifica bem edificados. Com os sonhos na altitude clara estamos, repitamo-lo, na zona racional dos projetos intelectualizados. Mas o habitante apaixonado aprofunda o porão cada vez mais, tornando-lhe ativa a profundidade. O fato não basta, o devaneio trabalha. Ao lado da terra cavada, os sonhos não têm limites”.

A casa é, pois, o abrigo protetor, seguro, (se ficarmos com a imagem do sótão), mas também aparece como lugar sombrio, propiciador do sonho, que arrasta o ser para o mistério, para o devaneio (se ficarmos com a imagem do porão). É na casa, canto onde se aninha a alma, que o ser se protege do mundo, e é para ela que o ser olha quando fora dela, no mundo. É nela que o ser se incorpora e vice-versa – é no ser que a casa se re-inventa, se re-edifica – o que nos permite dizer, que o ser carrega a casa, torna a habitá-la quando da vivência da imagem poética, isto é, é na casa que o ser se entrega ao devaneio e é para a casa que o ser se volta quando ela lhe devolve o devaneio na expressão da imagem poética. Memória e imaginação se aglutinam e se integram na germinação e consecução da imagem poética; operação que traz como palco a casa, casa primitiva, casa natal evanescente na memória e reaparecendo, transfigurada, na imaginação: na imaginação e pela imaginação, a casa surge como espaço de intimidade onde o ser ao se encontrar a si próprio, nos recantos da alma, (cantos da casa?) resgata o passado, agora transmutado em imagens.

Nos conceitos de repercussão e de ressonância veiculados por Bachelard na sua introdução em A poética do Espaço(1) encontramos a explicação da natureza e do percurso da imagem poética. Tais conceitos apontam, nos parece, para um movimento de verticalização – a imagem fértil e reflexiva, operando em profundidade, jorrando da alma, repercutindo no mais profundo do ser – e para um movimento de horizontalidade – a imagem transmissível, expandindo-se em ondas, emergindo a superfície, ascendendo a clareza do espírito.

Tentando agrupar essas idéias com o auxílio das teorias Yunguianas citadas por Bachelard, situaríamos o primeiro movimento, o da repercussão, movimento da alma onde a “racionalização” é menos clara e nunca definitiva, no porão, e o segundo, o da ressonância, movimento do espírito onde a racionalização se faz facilmente, no sótão. Ainda sintetizando, na repercussão, a imagem se alojaria no inconsciente, na ressonância, ela chegaria as esferas do ser consciente.

Esses princípios de repercussão e de ressonância nos parecem muito úteis por nos falarem da trajetória percorrida pela imagem, indo da alma (onde ela se reproduz) para o espírito (onde ela se perpetua); em termos bachelardianos, do porão para o sótão, vale dizer, da região embrionária, obscura, informe, para a esfera da linguagem, para a forma; dos cantos da casa para a escrivaninha, enfim, dos cantos obscuros da alma para o labor do espírito. Tais considerações abrem janelas para ampliar nossa visão acerca do bovarismo flaubertiano, tanto ao nível da personagem, quanto ao nível da escritura. Servem também para precisar em que termos se dão a estreita relação entre a personagem de Emma e o seu criador, relações tanto mais importantes que ela é explicitada pelo próprio Flaubert na célebre frase: “Madame Bovary c’est moi”.

Há então, da natureza de Emma em Flaubert. Os dois possuem como matéria prima o sonho, o desejo, a busca incessante. Parecidos e diferentes, eles se aproximam e se distanciam. Flaubert é Emma, mas Emma não é Flaubert. À imagem e semelhança de seu criador, Emma conhece a fantasia, a fuga da insípida realidade. Diferente dele é vítima de seu próprio universo romanesco alimentado na juventude por leituras de romances às quais se entregara durante a época de seu pensionato no convento.

Dentro de uma leitura antropomórfica da personagem e lançando sobre ela um olhar psicanalítico, diríamos que estão aí marcadas as causas de seus infortúnios. Ficaríamos com um recorte psicológico, e por isso mesmo, redutor, já que para Bachelard a psicologia, agarrada às causas, desvia sua atenção da obra.

Entretanto, se essa visão não dá conta da personagem enquanto ser de linguagem a serviço do projeto estético, ela recobre uma realidade referencial geradora e propulsora do texto narrativo. E aqui, a temática da casa nos fornece pontos de apoio para melhor entendermos o elo que os estreita, criador e criatura – já que são indissociáveis – e examinar o que os distingue e os singulariza – já que esta última se deixa destruir e o primeiro se constrói. Assim, acreditamos encontrar nas reflexões avançadas por Bachelard a respeito da importância da função de habitar dentro do espaço poético, algumas pistas que nos ajudam a enfocar determinadas questões que apontam para a interação entre a instância diegética (a história narrada, a de Emma) e a instância da narração (a história da escrita, a do narrador). Concentrando nossa atenção nos valores da intimidade do espaço interior, precisamente, aqueles que envolvem a relação casa/personagem, verificamos que se coloca a carência desse espaço na vida da personagem. Emma foi educada num convento, espaço coletivo, o que a leva a uma “moradia sonhada” cujo modelo ela encontra nas leituras às quais já nos referimos.

 

Quisera viver nalgum velho solar, como aquelas castelãs de corpetes compridos que, sob os ornatos das ogivas, passavam os dias com o cotovelo apoiado ao peitoril e o queixo na mão, à espera de ver surgir do extremo horizonte algum cavaleiro de pluma branca, galopando num cavalo preto”.(M.B.p.32)

 

Assim pois, sua casa é alicerçada nos seus sonhos romanescos. Ali está o seu castelo.  Se a casa é nosso “canto do mundo”, “nosso primeiro universo”, a casa de Emma nunca existiu, é virtual, não abriga o devaneio, faz parte dele. Nesse sentido ela não tem casa, ela sonha a casa. A “concha inicial” onde ela se aninha, se localiza em seu corpo, em sua alma. A partir deste “canto” todo um universo é imaginado: o habitacional, o social, o amoroso. Se na visão bachelardiana a casa protege e abriga o sonhador, em Emma, ela a deixa desprotegida, por que a casa nunca existiu, só se torna realidade no sonho. Emma é, por assim dizer, “atirada ao mundo” sem antes ser colocada no “berço da casa”. Sem casa, Emma é um ser disperso, sem raízes, o que ela tem são seus sonhos dos quais a casa faz parte. Se a casa bachelardiana é o “canto” do qual partem os sonhos, passados, presentes e futuros, a casa de Emma se edifica no seu corpo, na sua alma, onde corre solto a fantasia traduzindo-se em imagens.  É, portanto na alma que Emma fala – e Flaubert com ela - seus desejos e paixões, e na emergência e repercussão das imagens, ela sente o despertar da criação poética:

 

Mas, ao escrever, tinha no espírito outro homem, um fantasma composto das suas mais ardentes lembranças, das suas leituras mais belas, das suas fortes ansiedades; e afinal este se tornava tão verdadeiro e acessível, que Emma palpitava por ele, maravilhada, sem, contudo poder imaginá-lo claramente, tanto ele se perdia, como um Deus, na abundância dos atributos. Habitava na região azulada em que as escadas de seda se balouçam pendentes dos balcões, ao aroma das flores e luar”.(M.B.p.216). 

 

Chegara a formular sua decisão de escrever: “Comprara um bloco de papel, uma caneta e envelopes, apesar de não ter ninguém a quem escrever; sacudia o pó da prateleira, olhava-se no espelho, pegava num livro, depois, devaneando nas entrelinhas, deixava-o cair no colo”.(M.B.p.49).

Tal projeto, vê-se, não vai adiante. Emma anseia a palavra, não a possui; vive o sonho, não o escreve. É atraída pela aventura da arte e pela aventura da vida. Enraizada na repercussão, Emma permanece “numa região que estaria antes da linguagem”. A imagem está ali, nas profundidades, nas portas da linguagem. Diz Bachelard que, por  sua novidade, a imagem poética coloca a problema da criatividade do ser falante: portanto, na personagem de Emma não estaria o ponto de partida do fenômeno poético ? Servindo-se dos dois pólos alma/espírito, para explicar a dialética inspiração/talento, Bachelard nos diz ainda que: “Para fazer um poema completo, bem estruturado, será preciso que o espírito o prefigure em projetos”.

Uma hipótese se insinua: em Flaubert, ser da racionalidade, do espírito, reside o projeto; em Emma a obra nascente.  Emma e Flaubert as duas faces do eu poético: a face escondida, subterrânea (feminina) e a face luminosa, atuante (masculina). Em Emma e em Flaubert se realiza, portanto, a verticalização repercussão/ressonância, se opera o movimento que vem da alma para o espírito, das profundidades para a superfície. De Emma a Flaubert, uma trajetória dentro da qual se inscreve a evolução da imagem poética; um rito de passagem que se abre para que a imagem exista em plena luz, para o domínio da palavra sobre o drama. Tocamos aqui no espaço da ação criadora, autônoma na sua relação com a personagem criada; espaço da narração em oposição ao espaço diegético – do bovarismo vivido pela personagem; o “pathos”, as paixões, o desejo, as desilusões, a morte. No espaço da narração, a mão do criador – o bovarismo re-presentado; a história cede lugar às cenas. Flaubert realiza a tentativa frustrada de Emma face à escrita. A temática da casa permite fechar ainda mais essa questão. Se Emma “atirada ao mundo”, desabrigada, não consegue vivenciar a habitação – janela a partir da qual se pode ver o mundo e representá-lo, Flaubert vivencia o interior, a ação criadora: a primeira está sempre saindo da casa, de olhos fixos no sonho, impulsionada para fora, o segundo sabe o caminho de volta para si, para a casa, faz dela uma janela para ver o mundo, recriá-lo, representá-lo.

No verso e reverso do texto, na unidade de sua tessitura, a travessia de dois corpos, o corpo febril de Emma, habitado pelas paixões, ressentindo na pele a frieza do mundo, e o corpo do narrador, impassível, distante, dissociado de Emma porque associado à escrita.

Em termos mais abrangentes, diríamos que no corpo febril de Emma vive o corpo febril de Flaubert, aquele que se evade da realidade e se entrega aos altos vôos da imaginação. O corpo de Emma é o corpo de Flaubert; o mesmo fundo animista os envolve. Porém no corpo comedido de Flaubert, distanciado, retraído, em casa e longe do mundo, é gerado o corpo da escrita que guarda do corpo da personagem o registro da ilusão romântica, do desejo, da morte.  Em oposição ao vermelho da história o cinza da escrita. Sobre o corpo sedento e enfim mutilado da personagem se escreve o corpo liso da escrita, corpo plácido cuja estrutura, descritivo/narrativo, cênica, traça as cores do bovarismo. 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

As citações retiradas da obra Madame Bovary de Flaubert apresentadas no corpo deste trabalho estão contidas na seguinte edição:

 

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução Araújo Nabuco. São Paulo, Abril Cultural, 1981.

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Trad. Antônio da Costa Leal e Lídia Do Valle Santos Leal. Rio de Janeiro, Eldorado Tijuca.